Por que temos de servir sem limites???
Sobre o trágico término do assalto ao ônibus no RJ

 

Ivna Sá dos Santos*

Tive a oportunidade de acompanhar pela televisão, na tarde de ontem, dia 12 de junho de 2000, todo o drama vivido pelos reféns do assalto no ônibus, na cidade do Rio de Janeiro. Depois da “resolução” em que três vidas foram sacrificadas, sobretudo a da professora cearense de 20 anos (morta por três tiros) e a de seu filho que trazia no ventre, algumas reflexões explodiram no meu coração e um desejo incontrolável de escrever essas linhas me traz aqui.

A que ponto chegamos? Assistir pela TV ou ao vivo uma cena real que mais parecia um filme policial, sem poder fazer nada. A maior e mais real sensação de apatia que muitos brasileiros já puderam experimentar. Não era novela, nem filme. Eram vidas que para serem salvas, era necessário um batalhão de 100 homens armados, os “atiradores de elite”, como diz a imprensa. No momento em que tudo parecia ser resolvido, o desastre completo. A morte venceu a vida.

Agora, a polícia, ou melhor, o policial que atirou é o vilão. Mas se a professora vivesse, ele seria o herói nacional. Que paradoxo é o pensamento humano!!! Mas entrar nesse mérito não é meu objetivo. Quero propor uma reflexão do porquê de tudo isso. Aquelas mortes ocorreram, porque a polícia estava despreparada? Por que a sociedade civil ainda não tomou uma posição em relação ao problema do tráfico? Por que o sistema em que vivemos é desigual e isso gera a violência? Por que o assaltante deveria estar na cadeia e porque as cadeias do Brasil somente pioram o quadro de delinquência dos nossos bandidos? Fato é que já nem mesmo sabemos o que pensar e dizer. Tudo parece ser em vão, sem sentido e o mundo vai se apresentando tão cruel que o medo, qualquer dia desses, vai nos impedir de sair de casa e teremos de fazer da nossa casa, a nossa prisão de luxo.

O que quero compartilhar com quem vai ler este texto é o sentimento que habitou em mim ao ver o que vi no dia de ontem. Minha conclusão foi até simples, porém muito séria. Ou nós cristãos tomamos uma atitude definitiva de dar a vida pela construção do Reino, ou vamos sobreviver, na lei do salve-se quem puder, na pior barbárie que os filhos de Deus poderiam viver. Isso não é brincadeira, isso não é ficção, isso não é mais um texto sensacionalista desses que agora aparecem por todos os cantos. É a dura e cruel realidade e ao mesmo tempo um desafio. Fico a pensar que enquanto muito sangue inocente tem sido derramado, no Congresso os políticos descutem o sexo dos anjos... na nossa imprensa se descute a agenda do Bill Clinton ou o cachorrinho que nasceu de uma socialite... no futebol, vamos eleger os craques do campeonato...nos sindicatos, nos grupos sociais, nas associações se discutem políticas e mais políticas que não têm chegado a lugar nenhum...na Igreja ou entre os cristãos e homens de boa vontade, nos perdemos em picuinhas, em briguinhas internas, um grupo querendo ser melhor que o outro e por aí vai... Triste realidade! O Reino não tem acontecido. Parece que esse verme do descomprometimento atingiu todas as esferas sociais. Senhor, fico a Te perguntar: Será que estamos fazendo tudo errado??? Será que terás de voltar à Terra, morrer novamente em uma cruz e ser crucificado por nós mesmos para que entendamos de uma vez por todas o que significou e significa o mistério da CRUZ???

Só o amor é a resposta, dizia o próprio Cristo!!!! O problema é que estamos longe de saber o que significa essa palavra. Não é metáfora, não é abstração e muito menos um sentimento, ou uma energia. É serviço... É lutar para que a vida vença, em todos os sentidos. É oração, é participação. É muita coisa que ainda não estou apta a escrever, porque quando vejo o que vi ontem, percebo que ainda tenho muito o que servir, muito o que orar, muito o que participar, muito o que amar.

De tudo isso, quero propor uma coisa, para você que lê este texto. Hoje, antes de dormir reflita sobre o que tem feito para diminuir o ódio no mundo ou o que ainda não fez para que exista mais AMOR em sua casa, em sua escola, em seu trabalho, em sua cidade, em seu país...Se é para libertar os pobres e oprimidos, que os libertemos... Se é para renovar as universidades, que as renovemos... Se é para lutar pela unidade da Igreja e dos cristãos, que lutemos... Se é para servir, que sirvamos...independente do lugar, mas que façamos tudo, e bem, como é o nosso dever, TESTEMUNHANDO COM A VIDA E NÃO SOMENTE COM PALAVRAS, sendo os primeiros a lutar pela não violência, a abrir mão de nossas vontades e caprichos para que unidos sejamos verdadeiramente IGREJA DE CRISTO, POVO DE DEUS OU HUMANIDADE CIVILIZADA.

Ainda somos muito plano e pouca realização, muito discurso e pouca prática, muita aparência e pouca transparência, muita vaidade e pouca humildade. E mesmo assim, Senhor, Tu ainda insistes em nós... Não posso responder por ninguém, só posso dizer: “Não me permitas desistir, afasta de mim todo comodismo e dá-me uma vida entregue a TI e em favor do próximo. Permita-me ser fiel e cumprir o que agora escrevo. Tenho a consciência de não estar movida por uma emoção, mas sim pela Verdade que es Tu mesmo! Recebe, Senhor, essa mulher com o seu filho, assim como tantas outras pessoas no mundo que tem sido vítimas do nosso não amor e da indiferença humana. Receba esse assaltante, porque mesmo que seja difícil para nós, sabemos que Tua Lei não é somente a justiça, mas também a misericórdia. E tem misericórdia também de nós que aqui ficamos e que necessitamos aprender a amar. A construção do Teu Reino não é e não pode ser uma utopia. É urgente e é a única maneira de exterminar do mundo o mal da indiferença que gera todos os outros males!!!” Que não seja preciso morrer um irmão, parente ou amigo nosso, vítima da violência, para que saiamos do nosso comodismo. Temos de servir, sem limites ...

*Jornalista/assessora de comunicação do Projeto Universidades Renovadas